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Criatividade
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Em vinte e tantos anos de digital já vi vários memes virarem surtos, e muitos deles estão no mundo empresarial.

A esperança de quem não virou ainda um ídolo das multidões é ser póstumo, esperança confortável para quem desacredita no além e não precisa ter medo de se frustrar com o esquecimento dos vivos. Risco zero, consolo agridoce.

O que deixarei de legado? Como você gostaria de ser lembrado? Pense, e enquanto isso eu te conto meu sonho: deixar voando, por aí, um verso curto, um refrão, uma melodia a ser assoviada gerações afora. Meus heróis fizeram isso: viveram como labaredas e deixaram de lembrança um poema ou outro que cabe num guardanapo amassado, num espelho do quarto, num twitter suspirado, deixaram canções, aforismos, pérolas. Morro de inveja.

Eu produzo aos borbotões, quem me segue já sabe, mas o que desses teras e teras tem alguma chance de pegar carona nos corações vindouros? Qual criação minha, qual malcriação que seja tem alguma chance de virar meme?

Exponencial : O novo meme do mundo empresárial

Não, não estou pensando em GIFs com tiradas em caixa alta, esses eu faço de monte. Estou pensando na ideia original de meme, aquela que não é cria do Richard Dawkins mas de outro cara anterior cujo nome esqueci porque o infeliz não levou a fama. Meme é o equivalente mental do gene hereditário, meme é uma informação que vai se multiplicando por aí, contaminando o cérebro alheio como se fosse um vírus.

Em vinte e tantos anos de digital já vi vários memes virarem surtos. “Interativo” foi um dos primeiros, e não havia uma proposta de site que não tivesse a expressão “altamente interativo”, seja lá o que isso quisesse dizer num site que era mal e mal um folheto online. Eu me lembro quando a IBM tentou sentar na janelinha do bonde com o meme “e-business on demand”. Que diabo era isso ninguém sabia, mas pegou.

De que outros memes vazios eu me lembro? “Colaborativo”, claro, e desse eu gostava bastante. Tentei emplacar a noção de “peopleware”, mas não vingou. A minha diferença foi quando surgiu o tal do “engajamento”, um nome estapafúrdio para o ato de clicar numa mãozinha ou para as métricas rasas que as plataformas ofereciam. Quantas vezes você viu alguém falando de boca cheia “engajamento” para enaltecer o resultado questionável de alguma ação cosmética? E ai de quem questionasse o valor concreto desses números… a reação era um virar de olhos misturando desprezo e piedade pela mentalidade 1.0, e isso me lembra de “Humanidade 2.0”, claro, e depois 3, 4.0. E, finalmente, “social”, idealmente pronunciado com um sotaque perfeito de uma língua inventada.

O truque em digital, porém, é você inventar um meme novo antes que alguém perceba que o anterior foi perda de tempo, e não demorou para “disrupção” irromper em cena com ardor revolucionário e servir de estandarte para propostas as mais inócuas. Como revolução, contudo, seduz a poucos “disrupção” foi disruptada (ou disrompida? ou disrupcionada?) por um meme menos fálico, menos marcial, muito mais elevado, mais ecumênico, mais dócil: “propósito”. Use-o e observe: #asminapira.

Um meme recente, porém, me fascina: “exponencial”. Esse eu vi nascer, esse eu conheci pai e mãe: em 2011 fui aluno da Singularity University e conheci os progenitores dessa febre. Logo na entrada da sala de aula tinha uma frase num banner: impactar um bilhão de pessoas com tecnologias exponenciais. Fiquei impactado, ao menos por alguns segundos, tempo que levei para lembrar que um meteoro também impacta e que um desses poderia provocar uma bela “disrupção” em Brasília… mas eu digresso. Voltemos à Singularity.

Pois bem, quase oito anos depois “exponencial” ganhou a boca do povo. Brasileiros, por alguma razão (ou falta de) são os alunos mais numerosos da Singularity, e voltam todos inflados de “propósito”, “disrupção” e exponencialidades. Eu mesmo fui um dos três primeiros consultores certificados em tecnologias exponenciais pela ExO Works, e ai de mim se eu apresentasse alguma ideia que não fosse “exponencial”, era gongado na hora.
Exponencial, para quem por algum trauma escolar incurável ainda se lembra, era algo matemático, envolvia coisas elevadas a outras, curvas bastante curvas e equações indóceis. Passado esse calvário estudantil, o resto da vida se resume a contas de padeiro.

Como essa perversão algébrica se tornou algo a ser dito com reverência, com teatralidade, com fé numa bem-aventurança iminente? Não tenho ideia, mas tiro o meu chapéu para quem, entre tantos outros adjetivos possíveis, escolheu justo um que virasse meme e fizesse sucesso… exponencialmente.

Meme que é meme tem aura, tem uma força mística que resiste a esforços cartesianos de chatos como eu que tentam desfazer o mito. “Exponencial” enche o peito de quem nunca foi pra Singularity nem leu o livro do Salim e nem imagina quais sejam as tais das tecnologias “exponenciais”, que de exponenciais não têm nada, claro.
Já deve ter ficado claro porque as minhas chances com a posteridade são tão baixas: eu sou incapaz de bolar algo tão arrebatador, tão insustentavelmente leve, tão contagiante. Eu tenho tanta consciência dessa minha incapacidade que, quando lá na Singularity o Kurzweil (o pai da ideia de singularidade, aliás) falou que a tecnologia nos tornaria imortais (transumanismo é o nome…) eu peguei o microfone e disse: não se preocupe em me backupear não, nem em me prolongar para sempre. Eu sou boring.

Acho que ele não gostou. Meu consolo é que ele não vai esquecer de mim jamais.

Publicado em:

Estrategias que Transformam

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