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Dificuldades do agronegócio

O recém-firmado acordo entre União Europeia e Mercosul foi negociado durante 20 anos. Com as últimas mudanças políticas na América Latina, sobretudo no Brasil e na Argentina, os blocos chegaram finalmente a uma conclusão que irá impactar diretamente o agronegócio brasileiro. Barreiras tarifárias caíram, e surge agora um novo horizonte para os produtores, impondo desafios e possíveis dificuldades.

O acordo afirma que, a partir de agora, 90% dos produtos agrícolas exportados para a União Europeia terão as tarifas zeradas. Juntos, Mercosul e UE formam um mercado de 780 milhões de pessoas, e representam 25% do PIB mundial. Devido a essas dimensões, o acordo é considerado histórico e uma vitória para o bloco sul-americano diante de um momento de incerteza no comércio mundial.

Agora, algumas dúvidas surgem para os produtores brasileiros. Como o agronegócio nacional irá se comportar? Quais as barreiras que caíram e quais as que surgiram? É possível falar em uma “queda do muro” do agronegócio brasileiro? Se ainda é muito cedo para chegarmos às respostas definitivas para essas questões, podemos realizar uma projeção com base nos fatos (e nos números).

As dificuldades no meio do caminho

A produtividade brasileira, de uma forma geral, permaneceu estagnada durante os últimos anos. As negociações pareciam priorizar a ideia da autossuficiência, e muitos viam o fechamento do país para o exterior como uma marca cultural do Brasil. As visões ideológicas impediam uma abertura comercial e, se não fossem alguns parceiros bilaterais, em especial a Argentina, poderíamos nos considerar comercialmente isolados.

Por outro lado, o agronegócio brasileiro precisa lidar com frequentes acusações, tanto interna quanto externamente. Alegações sobre o abuso de agrotóxicos e uso de trabalho escravo são constantes, e costumam pautar a atuação de ONGs e parlamentares que fazem frente à bancada ruralista.

Além disso, na visão do chanceler Ernesto Araújo, o Brasil ainda sofre com uma imagem distorcida do seu agronegócio. O Ministro das Relações Exteriores afirmou que, ao longo dos anos, foi criada a ideia de que o produto brasileiro é de má qualidade.

Essas são algumas das dificuldades que serão condensadas neste novo cenário, onde a participação externa é mais forte. Cabe ao agronegócio brasileiro saber lidar com as mudanças que estão por vir.

Números que aquecem a competitividade

Além de abranger o agronegócio, o acordo irá facilitar o comércio em diversos segmentos, como comunicação, serviços, construção, turismo, transportes, mercado de licitações entre outros. Até o ano de 2035, as exportações brasileiras para o continente europeu devem ter um lucro de US$ 100 bilhões. Em relação ao PIB brasileiro, em 15 anos o Brasil deve crescer em US$ 87,5 bilhões, e pode chegar em até US$ 125 bilhões com as reduções das barreiras não tarifárias.

Produtos como azeite, frutas frescas, vinho e leite vindos da União Europeia não serão taxados. Serão ao todo 67% dos produtos agrícolas. A cláusula não agradou alguns produtores. O Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN) acredita que o setor terá um impacto negativo, devido à alta carga tributária interna, com juros elevados, inacessibilidade ao crédito, pouco apoio para assistência técnica entre outras dificuldades.

Diante desses problemas, o governo brasileiro afirmou que irá criar um fundo de apoio à produção do vinho brasileiro. No entanto, europeus também manifestaram seu desconforto com o acordo. Na França e na Alemanha, produtores até marcaram datas para manifestar sua desaprovação diante de uma possível concorrência desleal.

Já a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) comemorou o acordo em nota. O órgão representante das agroindústrias exportadoras de carne de frango e suína afirmou que, em 1 ano, a exportação de carne de frango atingirá uma cota de 180 mil toneladas.

Uma visão otimista é de que o consumidor poderá aquecer o mercado, o que representaria uma vitória para o governo. Como o sistema tributário brasileiro é voltado, principalmente, à arrecadação, o acordo é uma forma de estimular o comércio, agregando valor à população.

Com o acordo, produtos exportados como queijos, vinhos, cafés e cachaças terão o reconhecimento como distintivo do Brasil. Produtos considerados essenciais para vendas externas também terão redução de tarifas. É o exemplo de frutas, café solúvel, peixes, crustáceos e óleos. As carnes bovina, suína e de aves também serão mais facilmente exportadas, bem como açúcar, etanol, ovos e arroz.

O documento final estabelece que, ao todo, 93% dos produtos agrícolas e pecuários exportados para a União Europeia terão as tarifas eliminadas. Por meio de um sistema de cotas, o Mercosul garante que 82% dos produtos do agronegócio terá impostos de exportação zerados por 10 anos.

A “última fronteira negocial”

Embora seja um mercado desejado, ainda existe o chamado “protecionismo europeu” que preocupa o agronegócio. No acordo entre Mercosul e União Europeia, foi incluída uma cláusula chamada “princípio de precaução”, que assegura o mercado europeu contra possíveis danos.

Segundo o dispositivo, chamado de “última barreira negocial” por uma fonte próxima às negociações, é possível que exista um bloqueio nas importações. Isso preocupou o agronegócio, porque produtos podem enfrentar duras barreiras para chegar à Europa. É o caso das produções que envolvem o uso de agrotóxicos ou criados em áreas ilegais de desmatamento.

Para não ser uma fonte de abuso dos europeus, a negociação incluiu medidas que protegem o Mercosul, visando revisão periódica do dispositivo e a apresentação de comprovações científicas.

Início do fim do custo-Brasil?

Por muitos anos o mercado brasileiro foi tido como impenetrável. Um acordo que durou duas décadas para ser firmado representa a dureza com que os negociantes anteriores tratavam o assunto. Além da dificuldade de entrar em um acordo puramente comercial, existiam visões de mundo diferentes, uma delas mais liberal e a favor do livre comércio, a outra mais protecionista e anti globalização.

Portanto, a forma mais compreensível de entender o acordo não é apenas como uma conquista pontual, mas uma mudança de épocas. O fato de as negociações terem durado 20 anos demonstra que a visão antiga dos negócios está gradativamente indo embora. Com isso, o agronegócio acompanhará a mudança do bloco, agregando novas experiências comerciais.

Para os produtores que se sentirem prejudicados, resta a criação de uma frente de defesa, em busca não de mais protecionismo, mas de medidas que garantam a justa competitividade com os europeus. E isso o governo brasileiro, tanto esse quanto os próximos, tem papel fundamental no auxílio.

A tendência agora é o mercado se acostumar com um ambiente mais aquecido. As reduções tarifárias acontecerão de forma gradativa, como acontece em acordos.

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Estrategias que Transformam

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