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Transformação Digital
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Transformação Digital e o Covid

Nunca se falou tanto em Transformação Digital como em 2020. Provavelmente você já viu a ilustração que abre este artigo. Ela foi criada por Tom Fishburne e amplamente divulgada em redes sociais, como o LinkedIn. A imagem representa uma realidade ainda bem comum na agenda de lideranças de muitas empresas no mundo, onde o tema Transformação Digital ainda é visto como uma realidade distante. Entretanto, em meio à primeira pandemia do século XXI, a Covid-19, presenciamos uma mudança radical na forma que estas mesmas lideranças passaram a tratar o assunto. 

O coronavírus também foi protagonista da criatividade, que o colocou como principal motivo da aceleração da transformação digital nas empresas, acima da equipe de TI, do CEO, do CTO e da equipe de agilidade.

Um pouco de história sobre Transformação e do Digital

Por definição, transformar é mudar de forma, converter, trocar, alterar, variar, tornar diferente algo existente. Engana-se quem acredita que a transformação é algo recente, criada pelas startups da década de 1990 e um desafio exclusivo de grandes empresas que precisam se reinventar, ameaças também pelas startups. 

Para citar algumas disciplinas que estudam a transformação, temos a biologia, com Darwinismo; na medicina, o termo transformação é amplamente adotado em genética; na matemática, a transformação é base para geometria Euclidiana ou para os cálculos diferenciais e integrais; na física, na química, em sociologia, em linguística, na música , nos negócios e em todas as ciências estudadas, lá está a palavra. 

Já o termo digital é algo recente nessa linha do tempo. Vou passar pela história do primeiro computador. Muitos acreditam que o primeiro computador foi o ENIAC, na década de 1940. De fato, o ENIAC foi o primeiro computador eletrônico de larga escala da história, porém computadores mecânicos existem há mais de 2000 anos. 

Um exemplo é a Máquina de Anticítera, encontrada por arqueologistas em 1902 junto a um naufrágio. A Máquina de Anticítera foi um calendário mecânico capaz de prever a posição dos corpos celestes. Ela era usada como um instrumento de navegação naval. O primeiro computador mecânico moderno surgiu no século XVIII, criado por Charles Babbage. A Máquina Analítica foi um protótipo de calculadora programável com métodos de entrada e saída, construção condicional e loops. Uma passagem famosa na história da Máquina Analítica foi protagonizada por Ada Lovelace, reconhecida como a primeira programadora da história ao utilizar o computador mecânico de Babbage para calcular os números de Bernoulli. 

No final da década de 1930, o famoso Multiplicador Criptoanalítico, idealizado e criado por Alan Turing, é reconhecido como o primeiro computador eletromecânico da história. Entre 1943 e 1944, Turing utilizou uma combinação de switches, relés e válvulas para realizar cálculos matemáticos com grande plasticidade batizado de Colossus, o primeiro computador eletrônico e digital programável da história.  A história de Turing aparece no filme O Jogo da Imitação (Imitation Game) de 2014, protagonizado por Benedict Cumberbatch, que retrata o desafio dos ingleses em quebrar e decifrar mensagens cifradas dos alemães durante a 2ª Guerra Mundial, fato que contribuiu para a vitória dos Aliados.

Foi em 1945 que surgiu o ENIAC (Electronic Numerical Integrator And Computer), desenvolvido na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, por John Mauchly e J. Presper Eckert, para fins militares: calcular trajetórias balísticas de mísseis. Para quem acha um notebook grande e desajeitado, imagine uma máquina de 30 toneladas, que ocupava cerca de 170 m², com cerca de 17.500 válvulas, 10 mil capacitores, 1.500 relés e milhões de conexões soldadas de forma manual. O ENIAC consumia cerca de 160 kW para funcionar e, devido à fragilidade de seus componentes, não era desligada. Voltando aos 160 kW, isso equivale ao consumo mensal de uma família brasileira (160 kWh/mês, em 2016, de acordo com o Ministério de Minas e Energia do Brasil).

Mas o que é a Transformação Digital?

Pode-se dizer que a Transformação Digital é o uso de tecnologia eletrônica e digital, como o Colossus de Turing e o ENIAC da Universidade de Pensilvânia, para otimizar processos e a  geração de valor. Uma das definições que melhor reflete o que é a Transformação Digital foi proposta por Gregory Vial: “um processo que visa melhorar uma entidade, provocando alterações significativas em suas propriedades por meio de combinações de tecnologias de informação, computação, comunicação e conectividade”

Com essa definição é possível entender que a Transformação Digital não foi criada nos anos 2000 pelo Google ou pela Amazon, como algumas pessoas acreditam. Ela surgiu junto com os primeiros computadores eletrônicos e, naquela época, provocou uma mudança profunda na cadeia de valor. Operações que eram realizadas por centenas de especialistas como engenheiros, físicos e matemáticos, passou a ser realizado por uma máquina do tamanho de uma casa. Imagine o protesto e as críticas por uma máquina tirar o emprego de milhares de pessoas. 

De 1960 a 1970, os computadores passaram a fazer parte dos negócios, da vida das pessoas e da sociedade como um todo. O resultado foi o que chamamos de 1ª Onda da Transformação Digital. A automação de operações foi possível, juntamente com a padronização de processos em busca de eficiência. 

Em 1960, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos liderou o desenvolvimento da primeira troca de dados entre computadores da história. Os esforços possibilitam o desenvolvimento da ARPANET, também com fins militares, na década de 1970. A partir de 1980, civis puderam ter acesso a tecnologia que hoje conhecemos como internet. Em 1990 surgia o tão conhecido www (world-wide-web) e em 1994 os primeiros browsers (navegadores de internet) com o Netscape. No mesmo ano, a Amazon.com. O Google nascia em 1998 com o propósito de organizar toda a informação do mundo. O Napster (precursor do Spotify) em 1999, o MySpace (precursor das redes sociais) em 2003, o Facebook em 2004 e o primeiro dispositivo (com usabilidade) para mobile web em 2007 – o iPhone.

Chamamos este longo e intenso período de 2ª Onda da Transformação Digital marcada pela globalização, pelo desaparecimento das fronteiras físicas, pela possibilidade de coordenação e integração de dados, informações, conhecimento e valor em escala global.

Trago um trecho de um artigo de 2001 da Harvard Business Review, escrito por Michael E. Porter: 

“Muitos têm argumentado que a Internet torna a estratégia obsoleta. Na realidade, o oposto é verdadeiro. Como a Internet tende a enfraquecer a rentabilidade da indústria sem proporcionar vantagens operacionais proprietárias, é mais importante do que nunca que as empresas se distingam através da estratégia. Os vencedores serão aqueles que vêem a Internet como um complemento, e não como um canibal, das formas tradicionais de competir.”

Se você ler esse trecho hoje em uma publicação do LinkedIn e substituir o termo “Internet” por qualquer tecnologia emergente como “IA”, “blockchain”, “edge”, vai acreditar que trata-se de um desafio emergente de 2020. 

A Transformação Digital

Por fim, a partir de 2010 entramos na 3ª Onda da Transformação Digital. Ela teve início pela combinação de uma série de tecnologias dos últimos 50 anos que proporcionaram uma série de evoluções que redefiniram profundamente a cadeia de valor. Gosto de trabalhar três fatores que contribuíram para o cenário em que vivemos:

  1. O aumento do poder da tecnologia. De acordo com a Lei de Moore, que descreve que a capacidade de processamento dobra a cada 18 meses pelo mesmo custo, o potencial da tecnologia cresce em uma curva exponencial e, até hoje, se mostrou precisa (com chances de se reafirmar com a computação quântica nas próximas décadas). 

O custo de acesso. Em 1992 o custo de 1 GB de armazenagem era equivalente a 569 dólares. Em 2012, o mesmo 1 GB era obtido por menos de 0.30 dólares. A mesma tendência é aplicada para o acesso à internet de alta velocidade, a capacidade de processamento (CPU, GPU) e o armazenamento (local e em nuvem).

A combinação entre tecnologias. Nos últimos 10 anos, o poder da tecnologia cresceu exponencialmente e o custo de acesso caiu também exponencialmente. O resultado é a possibilidade de combinações quase infinitas. Um exemplo é o sequenciamento genético – o DNA. Quando a tecnologia era disruptiva e restrita, o custo beirava ao bilhão de dólares. Hoje é possível realizar o mesmo sequenciamento por menos de 100 dólares através de serviços online, preservando a qualidade e confiabilidade dos resultados.

O que vemos neste gráfico publicado na revista The Economist, em 2012, é a queda no custo da tecnologia, em azul, de acordo com a Lei de Moore em uma tendência exponencial. A linha vermelha, mostra uma queda ainda mais acentuada no mesmo intervalo de tempo. Este comportamento é explicado pela combinação das exponencialidade. Consequentemente, com a queda no custo de acesso é natural um aumento, também exponencial, da adoção – como ilustrado pela linha preta.

A Singularity University e a Nielsen colocaram em um gráfico o tempo que foi necessário para que alguns produtos fossem adotados por 25% da população norte americana. De acordo com o estudo, a eletricidade levou 46 anos para atingir este percentual. O telefone (fixo) levou 35 anos. O rádio, 31 anos. O computador, 16 anos. O smartphone apenas 3.

Outro gráfico, também da Singularity University, mostra que, no mundo, o telefone levou 75 anos para atingir 50 milhões de usuários. Já a televisão levou 22 anos. Os celulares levaram 12 anos e o Facebook apenas 4 anos. O Pokemon Go, um jogo para smartphone, levou apenas 19 dias – foi quase 80 vezes mais rápido que o Facebook e quase 270x mais rápido que a Internet. 

A Transformação Digital se resume a tecnologia

A afirmação acima é verdadeira. A tecnologia foi fundamental para a 3ª Onda da Transformação Digital e responsável pela exponencialidade que vivenciamos hoje. A disrupção dos meios de comunicação (Facebook), das redes hoteleiras (Airbnb), da indústria de entretenimento (Spotify, Netflix, Fortnite), do varejo (Amazon), do consumo (Rappi, iFood), dos bancos (Nubank), da educação (Coursera, Udemy, edX), entre tantas outras, só foram possíveis porque a tecnologia se tornou habilitadora a um baixo custo. Isso permitiu experimentar e errar sem medo. Possibilitou novas combinações que há pouco mais de 20 anos não eram pensadas. 

A tecnologia, porém não é o único componente da equação. Apesar de ainda ter um grande peso no sucesso (ou falha) em qualquer jornada de transformação, a tecnologia também deve ser combinada com outros componentes cada vez mais importantes atualmente. Como já comentei neste artigo, quando falamos de transformação lembramos que ela é multidisciplinar – pode ser uma transformação na matemática como uma transformação em ciências sociais ou ciências humanas 

Gerd Leonhard, futurista e humanista, propôs em 2015 que habilidades técnicas, conhecidas por STEM – science, technology, engineering and mathematics deve ser complementado por uma visão HECI – humanity, ethics, creativity and imagination, que diferencia os seres humanos de máquinas e robôs. Apesar de uma visão polarizada entre homem e máquina, Leonhard faz uma provocação válida que impacta a forma com que somos educados, com os quais nos relacionamos e que moldam nossas expectativas como indivíduos e como sociedade.

A Transformação não é mais Digital

A Transformação que vivemos hoje, em 2020, não é mais Digital. Como Porter comentou em 2001, não se trata mais de uma opção adotar a tecnologia ou não adotar a tecnologia, trata-se de usá-la e redefinir propósito e valor para sobreviver e se diferenciar. Para mim falar Transformação Digital soa como falar “subir para cima” ou “entrar para dentro”. 

Buscar na Indústria 4.0 a aplicação de tecnologias emergentes como Sensing and Mobility, Augmented Human, Postclassical Compute and Comms, Digital Ecosystem e Advanced AI and Analytics, continua sendo uma parte importante, porém tem se tornado uma peça do mesmo tamanho de outros componentes dentro de uma visão holística da transformação.

Também é leviano acreditar que a Transformação Digital se tornou uma Transformação Ágil, ou uma Transformação Cultural, ou uma Transformação Transcendental (como já ouvi citações). Não há mais espaço para uma única transformação. 

A transformação é sistêmica – e ainda não tenho um nome para ela. Vou falar mais sobre o futuro da Transformação Digital na parte 2 deste artigo. Nele vou colocar um estudo profundo que estamos realizando sobre a maturidade da transformação. Também vamos falar sobre quais são os componentes fundamentais para o sucesso de uma transformação.

Publicado em:

Estrategias que Transformam

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Transformação Digital por Tripulação ET
16.10.2020 às 16:57:36

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