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Transformação Digital
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Como falar do futuro se o passado não passa.

Vou entregar a idade aqui: toda vez que ouço a palavra “inútil” eu me lembro imediatamente do Roger cantando aos brados aquele clássico do Ultraje a Rigor. Inútil, porém, nem sempre é uma palavra pejorativa: quando Bill Gates fez uma palestra maravilhosa no TED, em 2015,  alertando para o risco gritante de uma pandemia de coronavírus seu esforço foi… inútil. Quando Barack Obama, em 2014, chamou a atenção de todos para uma pandemia iminente seu gesto foi… inútil. Se os atos públicos de duas figuras colossais e históricas foram inúteis, well, ser inútil não desmerece ninguém.

Pois bem: as melhores intenções podem dar em absolutamente nada. Por que?

Eu tenho uma tese: nosso pensamento tem um sistema imunológico, um firewall mental, um leão-de-chácara cerebral, um demônio de Maxwell, um… ok, melhor explicar essa história de demônio de Maxwell.

Maxwell era um físico inglês meio incomodado com essa história de que a desordem do universo só aumenta. Quem sabe ele tinha TOC, sei lá, mas, para pôr em xeque a noção de que a entropia vence sempre, o cara propôs um experimento imaginário onde um demônio (essa é a parte imaginária) no meio de um gás seria capaz de barrar alguns átomos e deixar passar outros e ao final teríamos um lado diferente do outro e voilà, teríamos ordem ao invés de desordem mas… como a Física não acredita em demônios a entropia continua invencível. OK, cultura inútil, ainda mais que demônios não acreditam em Física nem na Organização Mundial de Saúde, nem em jornalismo, muito menos em cultura.

Se os alertas contra a pandemia foram inúteis, o que dizer dessa eclosão, dessa ebulição, dessa erupção de protestos nas ruas contra o racismo? Por que eles aconteceram em tantos lugares nesse momento improvável? Onde estavam os sinais, os presságios, os alertas? Pelo visto em toda parte, como a fervura que parece borbulhar em todo lado de repente. Foi como se um demônio de Maxwell tivesse conseguido finalmente separar de um lado pessoas impotentes e de outro turbas incontroláveis.

Fomos pegos de surpresa tanto por um vírus fartamente anunciado quanto por um clamor popular que ninguém pressentiu. Talvez futurologia, futurismos e gurus sejam inúteis, talvez nossa inteligência, assim como os nossos olhos, têm um ponto cego, tenha um defeito de fábrica que a impede de enxergar direito dois palmos adiante (ou atrás, ou pros lados) do nariz.

Voltemos à ideia do sistema imunológico mental: não precisamos estudar muita Economia Comportamental, Psicologia Evolucionista, Yuval Harari ou Neurociência para perceber que a gente adora se enganar o tempo todo. Historinhas boas são aquelas onde nós estamos certos o tempo todo mas os outros estão incrivelmente errados… sempre. Ninguém gosta de ser lembrado que limpa o nariz alegremente quando o farol fecha. Ninguém gosta de ser lembrado de como foi injusto ou cruel ou maquiavélico ou covarde. Só o Fernando Pessoa assume que, enquanto todos são maravilhosos, ele é um ser humano medíocre. Tirando o poeta, todos somos campeões em tudo, sobretudo no Linkedin, e como bons semideuses (releia o poema, por favor) agora acreditamos que a pandemia está nos depurando e tornando mais humanos, mais modestos, mais tolerantes, mais colaborativos, mais fraternos, menos consumistas, menos competitivos, menos… o que sempre fomos.

Dá para sonhar com isso se o nosso firewall mental barrar os sinais óbvios que só um Demônio de Maxwell conseguiria manter à distância: assim que a China controlou o vírus voltou a poluir como nunca, e nos EUA cidadãos “de bem” desfilam com fuzis para defender o direito de não usarem máscaras, não acreditarem na ciência e, sobretudo, não se importarem com o bem comum. Idem para bolsonaristas e outras modalidades tupiniquins de negacionismo festivo.

“Como será o futuro quando tudo passar” é uma pergunta com vários calcanhares de Aquiles. Em primeiro lugar, como falar de “futuro” se o passado não passa, se ideias completamente caducas (de racismo a nacionalismo, de superstição a homofobia, de pensamento mágico a autoritarismo) continuam firmes e fortes ressurgindo quando ninguém espera? Em segundo lugar, “passar” implica a ideia de que um vírus novo desapareça como surgiu, do nada para o nada, ignorando que, se o coronavírus é tão poderoso assim, é porque nosso meio de vida aglomerado sempre será terreno fértil para pandemias e que vírus se reinventam mais rápido do que nós. Em terceiro lugar, a esperança de que tudo volte “ao normal” ficou meio estranha quando vemos milhões de pessoas nas ruas dizendo que o normal não é normal, nem nunca foi.

Eu tenho esperança, porém, pois conheço uma vacina contra esse nosso sistema imunológico mental que bloqueia o que desagrada, uma vacina quádrupla: ciência, instituições, leis, jornalismo – quatro invenções geniais que permitem que humanos juntos superem os pontos cegos de cada humano isolado e construam sistemas cada vez melhores que criem condições cada vez mais dignas para essa espécie que teima em se pautar pelo próprio umbigo.

Humanos juntos salvarão cada humano. Isto é, se cada um de nós não jogar contra, se nossos demônios não nos separarem em lados opostos.

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Estrategias que Transformam

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